quinta-feira, 10 de junho de 2010

Teia

Foto- João Ferraz

Teia


Célia Pires

Preza limites, embora não seja limitado.
É discreto, tão misterioso e reservado que é um convite querer desvenda-lo
Se ama, não gosta muito de falar e nem de demonstrar, mas por vezes deixa escapar um tom de profunda e morna ternura rasgando de prazer o coração de sua eleita, pois o momento é raro.
Tripulante de uma embarcação que pode jogar ou levantar âncora a qualquer momento. Um viajante do tempo sem precisar sair do lugar.
Muitas vezes o olhar vaga em penetrante melancolia e ele luta para içar os sonhos de volta e de novo e de novo parecer alguém simplesmente normal. Mas sabe que não é fácil retomar a rota desviada, tecer o fio tênue da esperança.
As imagens que produz ganham um colorido a mais, pois quer acreditar num mundo colorido. Muitas vezes mascara a realidade para não masca-la e engoli-la de uma vez e vomitar a sua desesperança, os seus queixumes que ele e somente ele sabe que carrega em sua própria teia.
Tantos sonhos de menino, tanta coisa o fascinava, mas o canto da sereia o atraiu e o traiu o marcando para sempre, mas ele nega essa verdade a si mesmo para não sucumbir. Pensa que foi tolo!Mas não sabe que ninguém é tolo quando acredita no amor que dá forças para qualquer desafio.Embora se engane, ainda não conseguiu se soltar dessa teia de rejeição e perguntas não respondidas.A solidão parece ainda ser a melhor companheira. Está enganado e sabe disso.Mas o canto da sereia ainda ecoa em seus ouvidos trazendo dúvidas se vale a pena ser par ou ímpar!
O corpo é forte e essa busca pela perfeição pode virar uma doença como um barco perdido num imenso mar, pois todos os outros sentidos são subjugados, esquecidos. Não importa a simpatia, a verdade, a dignidade. Só essa beleza externa. Só mansão, mesmo que a felicidade esteja na casinha branca de sapé. Poesia pra que?
E é esse amargor que muitas vezes o paralisa, que o torna trágico,que lhe arranca o açúcar que poderia fazer a doçura do bonito olhar.
E assim, mesmo lutando contra o tempo, as rugas de seus próprios desenganos vão fazendo sua morada, os cabelos outrora coloridos vão se tingindo de prata a despeito de sua vontade.
Preso na teia do tempo que é inexoravel!
Mas ele ainda não aprendeu a lição, pois é um dos melhores, mas não é o único.Ás vezes se cansa de tanto correr atrás.O mundo se torna muitas vezes injusto demais. Sinistro? Sim.
Mas é a vida. A vida que mostra que devemos olhar entorno de nós mesmos e reconhecer que não somos deuses, que devemos de vez em quando agradecer um gesto feito com ternura, sorrir mais e com verdade e simplesmente valorizar a amizade, a amizade consigo mesmo, que também pode ser e é uma das mais bonitas formas de amar...de se amar...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Flor da Liz

Foto-João Ferraz

Flor da Liz


Célia Pires
As coisas que mais adoro nessa vida, depois de escrever, ler e cozinhar é cantar e dançar.
Para uma pessoa tímida como eu isso seria um grande obstáculo. E é.
Quando nos expomos é como se realmente estivessemos no interior de um imenso aquário cheios de milhares de peixes e o único que está sendo observado é a gente. Mas quando essa vontade de cantar e dançar me bate penso: e eu com isso? A vontade de soltar a voz e o corpo suplantam até o medo do ridiculo.Se desafino? Sei lá. Se não dou os passos certos? Estou pouco me importando. Coloco para minha própria proteção "óculos escuros" invisiveis. Ai me transformo num peixe ou porque não numa sereia? E há até quem ache que sou uma mocréia se exibindo. Mas não tô nem ai para os bloqueadores da felicidade. Em tudo colocam maldade. Sou a Flor da Liz ou seria Flor de Liz? Tanto faz. Quero colorir a flor da minha existência. O que interessa é o desabrochar para o que considero ser alegria. Me importo com você, mas se não quiser me acompanhar, sei seguir sozinha!Valei me Deus!
Cabe a cada um de nós querer estar observando ou sendo observado fora ou no interior desse imenso aquário que é a vida,cabe a cada um de nós ser a pesca ou ou ser o pescador...

Primeira hora

Foto-João Ferraz


Primeira Hora

Célia Pires

Na primeira hora, o despertar. A primeira lembrança: seu rosto.
Creio e sinto não ter dito a verdade inteira, a que te amo, e a primeira dor me invade: remorso.
Ao abrir as janelas olho a paisagem ainda deserta das ruas e sinto como se fosse minha essa primeira hora, pois solitária, melancólica.
E essa primeira hora que não maldigo, pois me traz você. Essa hora segue a sua rota natural e avança deixando vir os primeiros raios de sol ou uma chuva miuda dependendo do humor do céu!
Mas, embora as horas passem, a minha vida permanece paralisada nessa primeira hora onde ficou em suspense a pálida esperança, a minha grande ambição de te ver voltar na mesma primeira hora em que partiste.Saudade.
Mas não se pode ficar atada somente à rede de lembranças, pois a vida é como um mar onde as ondas vão e vêm.Nem sempre mansas. É preciso remar contra a dor, mesmo que os sentimentos estejam calejados. E é preciso fazer dessa vida a cada dia, o espetáculo pelo qual se vale à pena viver, desde a sua primeira hora, sim,desde a sua primeira hora...

Alegria no chão


Foto-João Ferraz

Alegria no chão


Célia Pires

Lembra quando a gente era criança e alguém aparecia com um pedaço de pão ou uma guloseima qualquer e ,às vezes, antes de algum colega dizer não a gente gritava : Metadinha?
Mas também tinha uma outra palavra que a gente gritava quando não queria repartir. Não me recordo qual. Que pena!Mas acho que era, segundo meu irmão: 'licencinha'.
E nesses gestos e atitudes de repartirmos ou não é que fomos forjando nosso caráter, nossa maneira de ser.
Sabíamos exatamente quando alguém queria nos sacanear e vinha com as mãos cheias de um pedaço apetitoso de bolo que sabia fora do nosso alcance e já destruia nosso sonho de sabores, antes mesmo que a saliva se formasse em nossa boca. Sim, as crianças sabiam ser cruéis, mas também sabiam despertar o que mais bonito havia dentro de cada um de nós: a solidariedade!
Sim, erámos solidários quando não ganhávamos o desejado pedaço da guloseima, quando erámos esnobados pelos bambambans da escola, quando morríamos de medo dos meninos das laias atrevidas, dos estilingues com suas mamonas ou pedregulhos certeiros e quando simplesmente queríamos ser simplesmente crianças e ganhávamos os campos, os rios. Virávamos índios, bandidos, mocinhos. Nadadores dos lagos. Pescadores de girinos. Heróis do mato. Músicos de latas de óleo. Atiradores de macarrão. Eramos nós na fita. Erámos nós que não nos importávamos com a alegria no chão que podia surgir de uma partida de bolinha de gude, do futebol, de brincar de queimada,escalando monte, mas de grama; esconde esconde ou apenas de um ingênuo tombo de um palhaço. Eramos nós no filme mais bonito de nossas vidas: a INFÂNCIA...
Muitos cresceram e se esqueceram, mas outros ainda estendem a mão para aquela criança que ficou escondida dentro de si mesmo num cantinho inesquecível, confortável, morno e gostoso, e a convidam para vir brincar em seu quintal...ai é a alegria de volta...alegria no chão 'macio'da memória!!!

sábado, 5 de junho de 2010

Poeira leve


Foto-João Ferraz

Poeira leve


Célia Pires

Tem tanta coisa triste que trago na bagagem.
Percebo que não mais me machucam e não atingem mais o órgão vital, o coração.
Muitas vezes queria que você entendesse que não queria somente desfrutar do seu corpo, mas da sua alma. Comungar sentimentos. Sorrir contigo. Mas você não entendeu.Talvez assustado, o 'juntos para sempre' tenha lhe provocado medo. Mas quem pode saber o tempo que vai durar?Do amor, espera-se que dure para sempre, a despeito do medo, a despeito das contas para pagar, pois nem tudo é só sonho.
Tem tanta coisa triste que trago na bagagem. Pensei que a sua indiferença, assim como o sorriso que você não me deu e o adeus que você não pronunciou a cada dia que saia não tinham me machucado. Me enganei feio!
Só hoje percebo que esses fragmentos de descuidada atenção me feriram com uma lança pontiaguda demais, que perfuraram até a esperança que existia em mim.Que era inteira, integra.
Sonhava que um dia, como por um milagre, você me veria tal como eu era e sou: uma apaixonada. Por você.Quantas vezes não esperei um doce carinho e fiquei com as mãos vazias?Sempre e sempre.Mas artistas de araque como eu não percebem o papel de tolos!
Bandida, fui desonesta comigo mesma. Deixei você roubar meu sossego. Porque fui gravar o seu rosto em minha mente? Porque me deixei encantar com o brilho dos olhos teus? Pensei que você seria meu guia nesse mundo. Mas eu nunca existi pra você. Mentira. Existi sim. Eu era um incomodo que te atormentava até você pedir para eu parar de tentar ter você pra mim. Esse banho de água fria até hoje não secou e por incrivel que pareça não conseguiu apagar dessa triste bagagem que carrego essa poeira leve chamada amor... sim, essa poeira leve chamada amor...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O mágico brilho do seu olhar


O mágico brilho do seu olhar

Com encanto de menino ele capta a magia da luz como se fosse coisa facil.
Ah! Mas menino bom de fazer mágica assim é coisa rara de se ver!Sim, uma coisa rara de se ver!
Um dia vi uma coisa tão bela que nunca me esqueci: num lance perfeito, o sol incidiu seus poderosos raios diretamente num de seus olhos e o verde deles parecia um pedaço de luz. Viva. Uma esmeralda perfeita.
O momento foi fugidio. Mas se eternizou em mim como uma das paisagens mais lindas que já vi...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Me dá um abraço?


Foto-João Ferraz
Me dá um abraço?

Célia Pires

Um sentimentalismo barato me invade. Algo em meu intimo me adverte sobre ser piegas, mas não dou ouvidos ao sinal. Quero que quero um vento manso e morno me agitando os cabelos como uma caricia.Rio de mim mesmo bem antes, muito antes que alguém ria de mim.Cansei de ser triste!
Mas sorrir custa muito. A dor é cara demais. Real demais para simplesmente ignorá-la.
Esse ricto,esse esgar de dor em meu rosto é confundido com caretas, trejeitos, micagens. A platéia vem abaixo de tanto rir.Mas eu mesmo me transformei numa miragem de mim mesmo.
Sufoco todo o sentimentalismo que me invade.Preciso estar sempre fugindo de mim mesmo para não ser esmagado por essa dor. Mas para onde ir?
Sei onde ir. Mas seria bem vindo? Ainda me pesa a lembrança de você me deixando falando sozinho, com o amor engasgado na garganta. Aquele ato quase me matou, quase me fez desacreditar de mim mesmo. Mas logo vi que não devemos insistir em sorver aquilo que pode ser um remédio amargo travestido de mel.Só queria te dizer: vem cá me dá um abraço? Mas tudo me foi negado. Você caminhou em sentido contrário à sua vítima achando que a vítima era você. Quanta pretensão de minha parte achar que poderia fazer parte de sua vida. Ser palhaço, fazer da vida um circo cheio de alegrias e te fazer gargalhar de prazer todos os dias. Mas letal, você foi a bomba atômica explodindo na Hiroshima de meu coração.Destruição total. Da esperança. Dos sonhos loucos num belo picadeiro!
Depois de tudo, ainda me sinto seu. Lá no meu intimo está guardado um baú a sete chaves que não me permito, que não ouso abrir, além disso está a vontade de gritar com todas as forças dos meus pulmões: vem cá me dá um abraço em troca de todo imenso amor que ainda sente esse palhaço!!