segunda-feira, 17 de maio de 2010

O árbitro
























Foto-João Ferraz

O árbitro


Célia Pires

Novamente entrei em campo.Decidido. Forte. Sem medo de fraquejar, mesmo as pernas tremendo ansiosas, mesmo as mãos se mostrando nervosas.
Treinei tanto as jogadas que supôs que nada daria errado. Era gol na certa.
Meu coração palpitava mergulhado na mais pura esperança.
Corri. Suei a camisa.
Aflito quase não passei a bola com medo de não conseguir chegar até a pequena área e te dizer tudo o que sinto.
Mas na afobação, trancei as pernas me desequilibrei levando comigo os concorrentes que também, queriam acabar com a solidão, jogadores de ilusão.
O árbitro da desilusão se lançou sobre mim. Não quis saber dos meus argumentos.Expulso fiquei com o coração nas mãos, partido, esperando ansioso a próxima partida para tentar numa jogada de mestre fazer um gol certeiro e gritar com toda a força do meu coração para toda torcida escutar e você ouvir: TEAMOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

No teu olhar


Foto-João Ferraz
No teu olhar...
Célia Pires
Vejo no teu olhar uma fuga à realidade, por muitas e muitas vezes, dolorosa.Inútil.
Um sorriso muitas vezes amargo, pois olhos também sorriem!
Mas no teu olhar também encontro uma luz que teima em não se apagar e é nela que me queimo, onde espero um dia viver sempre incadescente.
No teu olhar vejo uma chama que me desperta e convida sei lá para que: para sofrer ou amar!
Uma pressa nervosa que quando tento te encarar, você rapidamente desvia o teu olhar!
Mas mesmo assim te amo e te amo. Violento a sua resistência e insisto em olhar no teu olhar para ali ler qualquer coisa que me faça decifrar o que é você, o que traz no coração.
Mas você sempre escapa ao descerrar os olhos me impedindo de ler o que está escrito no teu olhar. Me entristeço. Me engano querendo acreditar que já vi amor, que já vi no seu olhar o mesmo amor. Mas será que a reciprocidade que vislumbrei não seria ilusão de ótica? Não queria e não quero me enganar. Quero seu olhar pra sempre me desnudando a alma para que veja que dentro de mim só existe você. Você.Mas você age como um cego aos meus sentimentos. Não me vê ou finge que não vê.Essa é a minha dor. Essa é a dor que você pode ver no meu olhar.
Mas não quero pra mim essa tragédia surda, muda.
É tão bonito quando se pode conjugar o verbo olhar: eu te olho e te vejo.Você me olha e me vê!
Confesso que ainda desejo encontrar no teu olhar, o mesmo amor do meu olhar, do meu olhar...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Visão

Foto- João Ferraz

"Visão"


Célia Pires

Minha visão está cada vez mais turva, pois hoje rolam as lágrimas de um sofredor. Perdi tanto.Aos poucos a minha memória vai se apagando e com ela as lembranças das pessoas que eu mais amava, mas sei que irão estar sempre no meu coração, pois o amor nunca se apaga. É indelevel. Infinito.
Tive uma grande paixão. Amei com todas as minhas forças, mas também perdi quem mais amava. Hoje não consigo me reintegrar. Novamente me entregar. Me sinto perdido dentro de minha própria selva. No entanto, estranhamente, me sinto enjaulado.
Queria tanto poder voltar a sorrir,a viver e não somente vegetar que é o que está acontecendo.Também queria ter vez, oportunidade, mas isso me é negado dentro do meu próprio ninho. Se sinto que meu coração tem amor, de que não sou má pessoa porque essa angústia que me domina, essa dor que me consome as entranhas? Preciso de respostas... Sei que tenho uma dose, ou melhor, litros de culpas na minha própria história: rasguei capitulos bonitos. Agora está difícil reescrever a minha própria história. Só soube usar a borracha...
Hoje fiquei com fome. Meu estomago não aceitou o alimento, mas no entanto devorei um livro que acabei de ganhar. Me fez bem. Alimentou minha alma.
Tenho uma pessoa amiga, que é como um anjo para mim. Mora no meu coração: Me tirou do Inferno!
Peço às forças divinas que me ajudem a viver, ou melhor, voltar a viver. Pode ter certeza que se tiver mais uma chance não vou decepcionar. Vou apostar todas as minhas fichas na esperança.Depositar toda minha confiança em mim mesmo e tentar acabar de vez com todo esse sofrimento. Estou cansado, mas muito cansado, que me vejam como um fracassado. Um derrotado!
Quero paz, amor e união, vitórias, mas está cada dia mais dificil. Ando desiludido comigo mesmo, mas tive uma Visão de que posso reverter essa situação.Depois disso,meu coração bate mais forte em busca da visão de felicidade....de felicidade!

Imaginário

Foto -João Ferraz


"Imaginário"
Célia Pires

Puxa, como demorou para que eu percebesse que você não foi feito pra mim: não se alegra ao me ver chegar, evita tocar meu rosto e me dar um simples beijo. Tudo para mim é não. Tudo o que faço ganha uma outra dimensão. Só que negativa.Você não é meu número como dizem na gíria. Nunca seremos arroz com feijão ou goiabada com queijo, mas não lamento, pois quero ver nos olhos de quem amo a paixão, apesar de todos os meus defeitos. Não quero sentir seus preconceitos. Só quero aconchego enquanto acaricio seu peito...
Por Deus, por que construimos castelos, por que nos embriagamos com um tom de voz um pouco mais aveludado? Será realmente amor aquilo que nos faz sofrer?Que nos remete ao frio covil da solidão que aos poucos vai minando. minando e minando a nossa autoconfiança?Guardei para você o meu melhor sorriso, minhas mãos prontas para te encherem de carinho, palavras doces pra sussurrar no seu ouvido. Tudo em vão. Desceu pelo ralo da indiferença!
Hoje tenho saudades do meu sorriso aberto.Trocaria toda essa tristeza por uma única gargalhada escandalosa que afugentasse toda essa angústia que "enferruja" a minha vontade de recomeçar. A espada de dor que me atravessa não é fruto de minha cabeça. Fiquei acorrentada à sua rejeição e não consigo alforria. O chicote do desencanto bate forte em minha alma. Estou exausta. Cansada de lutar contra esse sentimento que me arrasa. Vou me vergando como uma haste, mas algo lá no fundo de mim mesma não permite que eu esmoreça por completo, pois esse amor não é Imaginário nem virtual como você supõe, ele é real,infelizmente,verdadeiramente real...

Simples


Foto- João Ferraz

" Simples"

Célia Pires

Ás quatro horas da manhã o despertador toca. Meu Deus, prá que acordar tão cedo? Mas já era de costume, todo dia era assim. Toma um angu, restos da noite anterior. Café não havia. Enterra o chapéu na cabeça, passa a mão na testa para retirar o suor, mas nem isso!É tanta a seca e seca a pele, seca a esperança cansada de esperar.Contempla com tristeza toda a aridez, e seu coração se espreme em gotas de saudade.
Pensa que já não tinha ouvido falar em Ecologia? mas ali, a tal da Ecologia, nem o eco tinha chegado!Ali mesmo, naquele mundão esquecido, já tinha ouvido falar de legião de descamisados, de violência, roubos, sequestros, corrupção, assassinatos de crianças, de homens, sem teto, de menores abandonados, de maniacos para todos os gostos e até mesmo numa tal de Constituição.
Não pense você que não conhecia outros lugares, que não houvesse pisado outro chão. Já tinha dado muita marcha à ré na sua história. Foi testemunha de muito ato falho.
Se perdeu no mundo e agora estava ali perdido em si mesmo, com os olhos cravados na terra cheia de sulcos, tantos quantos haviam já em seu rosto.
Tinha percorrido terras e terras, mas em todas elas havia privilégios de casta, extremismos, divergências, a maioria poderosa de intocáveis que nunca aprendeu a dividir, e ele não teve opção. Não ia se adaptar a um mundo onde não havia sequer um pagador de promessas. Com a fé nocauteada, volta às raízes, mas o útero da terra não é mais o mesmo: também está seco.
Gritos e gritos lançou ao ar. mas ninguém escutou ou será que o ignoraram?De repente se dá conta que estava completamente sozinho, a situação crônica. Nem a doçura do canto de algum pássaro. Liga o radinho de pilha prá se distrair. Toca "Losing my religion". Deus o que será isto? Será que captou ondas de outros planetas? Cadê "Asa Branca"? Cadê Elba? A farinha, a rapadura? Cadê a voz do 'dono' do país?A barriga dói. Fome. Não tinha aprendido ainda a dissimulá-la.A única coisa que lhe lembrava comida eram as maças do rosto, pois até a barriga da perna está vazia.
Um dia, o vento trouxe pedaços de jornal. Leu. Assustou-se com o que viu. Nossa, o que é que estava acontecendo? A última vez que tinha tido notícias, parecia que o país ia melhorar: Brasil na Copa e um presidente com varinha de condão, disposto a fazer desaparecer todo o mal. Parecia coisa de filme, com mocinho e tudo?Mas, agora aquilo que estava vendo era uma imagem às avessas àquelas que coloriram no princípio. O país está na U.T.I. Será que alguns daqueles famosos transplantes não resolveriam?Desesperançado, rasga o já roto jornal e o espalha ao vento. Vento? Bem que tinha lido em algum lugar sobre os falsos profetas.
O dia já ia se encolhendo e ele só fizera pensar. Do fundo do seu coração, queria que as coisas melhorassem. Queria tirar a mordaça e gritar novamente: " água, pelo amor de Deus! Água! Mas a garganta continuava seca.
À noite vem e o envolve num abraço tão apertado que chega a sair lágrimas de seus olhos. Lagrimas, que embora escassas, molham seus lábios ressequidos.Ah! como gostaria de poder desejar o que quisesse. Ele colocaria o verde nos pastos, a água de volta nos rios e um mundo de esperança no coração daqueles que perderam a fé em si mesmos...Simples assim. Simples assim...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Fly


Foto-João Ferraz
Fly
Célia Pires
Percebo tarde demais que o meu raio de ação visual e emocional me impediram de alçar vôos mais altos, de me lançar ao mar imenso com medo de ter as asas molhadas e salgadas pela desilusão. Mas de que adiantou?O vento soprou assim mesmo.Impetuosamente. Furiosamente.
Lutei bravamente, a despeito da limitação do meu raio de ação. Ansiava por um lugar onde pudesse pousar em segurança, mas descubro que a vida é uma montanha- russa sem controle e que nem sempre posso aterrizar onde eu quiser.
Vou aos poucos aprendendo a voar. Vôos rasantes. Vôos altíssimos.E só paro quando um certo 'visgo'por um instante me impedem de voar e me deixo ficar, relaxo e sinto que posso compartilhar vôos, néctares e voar sem precisar de asas....

Luzes


Foto-João Ferraz
LUZES
Escurece, mas, de repente, algo se esclarece dentro de mim. Acabou o mistério: sinto acender o lugar mais sombrio que conhecia, meu coração.Dilacerado. Cansado de bater em vão por um alguém que o lançou à escuridão da solidão!
Sim algo o alumia agora e está cada vez mais forte, como um belo pôr do sol que vai aos poucos tingindo a tarde.
Sim, me invade uma felicidade macia que vai deslizando mansamente para dentro , acabando com as temidas sombras, me colocando num doce repouso. Descubro que agora sim é amor de verdade.
Como sei? Pelas luzes, pelas luzes....